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Assertividade não é falar bonito

  • há 5 dias
  • 4 min de leitura

Tem gente que acha que ser assertivo é quase uma performance.

É falar bem, usar palavras elegantes, é ter postura, parecer seguro, é responder com firmeza e, se possível, com aquele ar de quem sempre sabe exatamente o que dizer.

Bonito? Mas não é isso.

Assertividade não é falar bonito. É falar com clareza sem virar um trator. É se posicionar sem atropelar ninguém. É conseguir dizer o que precisa ser dito sem transformar toda conversa em guerra ou em teatro.

Porque, convenhamos, tem muita gente confundindo comunicação madura com duas coisas bem diferentes: ou com silêncio engolido, ou com sinceridade descontrolada.

De um lado, está a pessoa que não fala nada. Vai guardando, vai relevando, vai fingindo que não ligou, vai sorrindo com raiva, vai dizendo “tudo bem” quando está tudo mal. Até que um dia explode por causa de uma colher fora da gaveta, de uma mensagem sem resposta ou de um “bom dia” com o tom errado.

Do outro lado, está a pessoa que se orgulha de “falar na cara”. Em geral, ela chama de sinceridade aquilo que, na prática, é falta de freio. Não conversa, despeja. Não esclarece, acerta. Não se posiciona, invade.

Nenhum dos dois lados é assertivo. Porque assertividade não é se anular, mas também não é se impor no grito, na ironia ou no peso. Assertividade é um tipo mais raro de maturidade, uma espécie rara em extinção chamada capacidade de sustentar uma verdade com respeito.

Parece muito simples, mas não é.

Agora pense numa cena muito comum que vivemos todos os dias. Alguém te incomoda no trabalho. Fala atravessado, entrega tarefa de qualquer jeito e não alinha nada direito. Aquela vomitada básica disfarçada de pressa. A pessoa passiva pensa: “Deixa pra lá.” e vai acumulando aquilo como quem guarda lixo emocional em uma caixa imaginária em sua cabeça. Já a pessoa agressiva solta: “Você sempre faz tudo errado.” E pronto. Temos um conflito. Nesse caso é a mesma caixa imaginária, só que com o fundo já aberto, despejando o acúmulo de coisas mal resolvidas.

A pessoa assertiva faz outra coisa. Ela não finge que não aconteceu, mas também não precisa incendiar o prédio para trocar uma lâmpada. Ela diz algo como: “Quando isso acontece desse jeito, o trabalho se complica. Vamos alinhar melhor a partir de agora?” Veja a diferença. Não engoliu. Não atacou. Não fez discurso. Não virou refém do desconforto. Apenas falou com clareza e elegância de um Lord.

E é justamente aí que muita gente se perde. Porque falar com clareza exige mais inteligência emocional do que falar com força de um trator. Falar com respeito exige mais domínio do que falar no impulso, esse disfarçado de “Eu sou assim”. 

Sustentar uma conversa difícil sem fugir e nem atacar exige mais presença do que parece. Exige paciência, empatia e claro, respirar fundo antes de responder.

Por isso, assertividade não é dom de quem fala bem. É prática de quem aprendeu a não se abandonar e, ao mesmo tempo, a não esmagar o outro.

No fundo, ser assertivo é recusar dois caminhos muito comuns: o de quem se apaga para manter a paz e o de quem destrói a paz para manter o ego. É um meio do caminho. Mas não um meio frouxo. Um meio firme.

É dizer “não” sem culpa teatral. É discordar sem transformar divergência em ofensa. É colocar limite sem humilhar. É pedir algo com clareza sem achar que o outro tem obrigação de adivinhar. É conseguir conversar como adulto, o que hoje em dia, sejamos honestos, já virou quase habilidade premium.

Porque muita gente adulta ainda se comunica como criança ferida ou como juiz de tribunal. Ou se cala esperando que o outro adivinhe ou acusa esperando que o outro se renda.

A assertividade rompe com essas duas fantasias. Ela parte de uma ideia simples e poderosa: eu posso dizer o que penso, o que sinto, o que preciso e o que não aceito sem deixar de respeitar quem está na minha frente. Mas não é todo mundo que tem a habilidade de entender isso. 

Isso vale para tudo. Vale para o relacionamento, quando a pessoa precisa falar de algo que incomodou sem transformar a conversa num acerto de contas. O mais comum é dormir no sofá do que ter uma conversa assertiva.

Vale para a amizade, quando é preciso colocar limite sem virar inimigo. Vale para o trabalho, quando alguém precisa corrigir, alinhar, discordar, pedir, negociar ou se posicionar. Vale até para o digital, onde muita gente ou fala como se estivesse pisando em ovos ou fala como se estivesse num ringue.

A verdade é que a maior parte dos problemas de comunicação não nasce da falta de palavras. Nasce da falta de equilíbrio.

Tem gente que acha que para ser respeitado precisa endurecer. Tem gente que acha que para ser querido precisa se calar. E no meio disso vai perdendo a chance de construir relações mais honestas.

Porque falar bonito impressiona por cinco minutos. Mas falar com firmeza, consciência e respeito constrói confiança. E confiança vale mais do que performance.

No fim das contas, assertividade não é sobre parecer seguro. É sobre ser claro. Não é sobre vencer a conversa. É sobre sustentar a própria voz sem ferir desnecessariamente a do outro.

Não é sobre falar bonito. É sobre falar direito.


 
 
 

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